sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Palhaço - Caderno de anotações 1

Por acreditar que nosso ofício também carrega um forte e essencial aspecto de ócio criativo, venho aqui expor minhas reflexões sobre a figura do palhaço. Tais comentários são parte de meu projeto de mestrado (ainda não cursado) e, portanto, não devem ser tomados por verdades, senão por observações que devem ser discutidas, bem queria, aqui neste blog. O primeiro texto tratará sobre a associação entre o universo da criança e a do palhaço. Seguem abaixo algumas linhas.

Criança e palhaço: semelhanças e equívocos

Ao que se refere ao universo lúdico, comumente são exemplificadas e associadas características da criança e do palhaço. Contudo, não menos corriqueiramente, equívocos são citados como pontos de razão que não existem. A ingenuidade, por exemplo, deve ser tratada com certo esmero, pois remete ao beócio, ao asno, e, muitas vezes, isto não é atributo do palhaço, que está ligado mais a uma insegurança, a um estado de razão não óbvia - assim como a criança. Destarte, tal termo é errôneo tanto para um como para o outro.

Desta forma, o que nos acomete a tais semelhanças são as ações feitas que desestabilizam uma linha de raciocínio convencional, nos importando para um outro lugar, também lógico, mas que subverte uma lógica cotidiana, estabelecendo um novo lugar, uma outra percepção e reação a um fato. O cineasta, teórico e diretor Federico Fellini, diz que o palhaço Branco, o garboso, elegante, que representa a lucidez e a inteligência, a harmonia, é representado socialmente pelo pai, pela mãe, pelo professor, “o que se deve ser”. E, embatendo sobre isto, o palhaço Augusto, o maltrapilho, revoltado, que tem dislexia, ou seja, tudo aquilo que , em essência, é o contrário do Branco, seria a criança. O professor que recrimina o menino, a mãe que corrige o filho, a ordem que sobrepuja a subversão.

Destarte, as semelhanças do palhaço com o universo infantil são todas relacionadas a este estado de contestação, não por conhecer e emitir uma opinião, senão pelo contrário, de desconhecer e questionar por não saber do que se trata. Essa natureza de pensamento não deve, portanto, ser confundida com uma “infantilidade” - remetendo a adjetivos pejorativos possíveis ao termo. O palhaço trabalha com a razão não óbvia, aquela não previsível, demagógica, mas sim com outra percepção, outra vertente de criação, mas não menos racional, apenas diferente. Uma associação mais clara, embora não muito feliz, seria ligada a um certo estado de ignorância.

Poranto, ao estabelecer esta outra lógica, o palhaço pensa por outro viés, determina e convenciona atitudes ou comportamentos que antes eram previsíveis, mas que, neste momento, tornam-se surpreendentes por seu caráter improvável e, assim como a criança, acredita e torna tudo que está em sua volta passível de mudança. Dessa forma, nasce um constante jogo de acerto e erro que são absolutamente aventureiros em seu cerne convencional, pois estrutura-se uma relação de ações inusitadas que são o reflexo de tais aventuras, surgindo, a partir desta outra lógica, um outro entendimento da situação em que se encontram. Neste ponto, em evidência, a lógica da criança e do palhaço dialogam.

Leonardo Rocha

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